Tragédia anunciada: até quando a omissão com os fios soltos em São Leopoldo? - Por Bado Jacoby
- Start Comunicação

- há 2 dias
- 2 min de leitura

A morte do ciclista Altemir Tempass, aos 58 anos, não pode ser encarada apenas como uma fatalidade. Independentemente da apuração das responsabilidades pelo acidente, ela expõe um problema antigo, conhecido e reiteradamente denunciado em São Leopoldo. Por isso, é inevitável classificá-la como uma tragédia anunciada.
Há muiitos anos, moradores convivem com postes sobrecarregados por cabos de telefonia e internet, fios rompidos, emaranhados pendurados sobre calçadas e vias públicas e estruturas aparentemente abandonadas. Basta percorrer qualquer bairro da cidade para encontrar situações que representam risco permanente a pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas.
Durante muito tempo, esse cenário foi tratado como um problema de poluição visual ou de organização urbana. Agora, diante da morte de um cidadão, fica evidente que a questão vai muito além da estética: trata-se de segurança pública e, sobretudo, da preservação da vida.
A pergunta que surge é inevitável: quantas denúncias já foram feitas ao longo dos últimos anos? Quantas reportagens mostraram fios caídos pelas ruas? Quantas reclamações chegaram aos órgãos públicos sem que uma solução efetiva fosse implementada?
O mais preocupante é que essa situação não surgiu da noite para o dia. Ela é resultado de anos de fiscalização insuficiente, de uma ocupação desordenada da rede aérea e da falta de uma atuação coordenada entre os diversos responsáveis pela gestão e pelo controle dessa infraestrutura.
As empresas de telecomunicações têm a obrigação de instalar, manter e retirar seus cabos quando deixam de utilizá-los. A concessionária responsável pela infraestrutura dos postes também possui atribuições relacionadas à gestão dessa ocupação. Ao poder público cabe fiscalizar, exigir o cumprimento das normas e adotar medidas para proteger a população.
Mas esse debate também precisa alcançar o Ministério Público. Como instituição incumbida pela Constituição da defesa da ordem jurídica, dos interesses sociais e dos direitos coletivos, seu papel é fundamental quando situações que colocam em risco a coletividade persistem por tanto tempo sem uma solução definitiva.
Quando cada instituição transfere a responsabilidade para outra, quem fica desprotegida é a população.
A morte do ciclista precisa representar um ponto de ruptura. Não basta lamentar, emitir notas de pesar ou anunciar providências apenas depois que uma vida foi perdida. É preciso transformar esse episódio em um marco para a adoção de medidas permanentes de fiscalização, organização da rede aérea e responsabilização de quem descumpre as normas.
São Leopoldo não pode esperar que uma segunda ou terceira vítima transforme um problema conhecido em prioridade.
A cidade perdeu um cidadão. Uma família perdeu um ente querido. E toda a sociedade recebeu um alerta de que a omissão também produz consequências.
A pergunta que permanece é simples, mas incômoda: até quando o poder público, o Ministério Público, a concessionária responsável pela infraestrutura dos postes e as empresas de telecomunicações permitirão que fios soltos e abandonados continuem colocando em risco a vida da população?
Depois desta tragédia, ninguém pode alegar desconhecimento do problema. A cidade espera que este episódio represente o início de uma mudança efetiva. Porque, daqui para frente, qualquer nova omissão será uma escolha.
Bado Jacoby é repórter e apresentador da Start Comunicação

























Comentários