Manual de sobrevivência ao inverno gaúcho - Por Daniela Bitencourt Andara
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Há uma diferença grandiosa entre sentir frio e morar no Rio Grande do Sul.
Quem sente frio coloca um simples casaco. Quem mora no Rio Grande do Sul desenvolve uma filosofia de vida.
Porque o inverno gaúcho não é para amadores. É um evento para profissionais.
O inverno deste ano chega acompanhado de previsões alarmantes, mapas coloridos, reportagens sobre geadas extremas e uma expressão que provoca mais ansiedade do que a fatura do cartão de crédito:
— Massa de ar polar.
Aí, meu Amigo, a vida muda.
Acordar da cama exige planejamento.
Tomar banho passa a ser um feito de coragem e lavar a louça transforma-se em um esporte radical.
Nós, mães, travamos uma batalha diária para convencer os filhos a usarem mais roupas e um casaco mais quente.
E os filhos travam uma batalha diária para provar que não precisam de tanta roupa.
Ninguém vence.
Saimos de casa vestidos como exploradores do Ártico.
Os adolescentes continuam usando bermuda. Um fenômeno científico que merece investigação.
E as manhãs???
O carro parece ter dormido dentro de um congelador. O hálito vira fumaça. E qualquer pessoa que diga “eu adoro frio” passa a ser observada com certa desconfiança.
Mas há também uma coisa bem curiosa sobre o inverno.
Ele nos obriga a diminuir a velocidade.
A vida se aproxima.
As pessoas ficam mais tempo em casa.
As conversas duram mais tempo.
As receitas de família são colocadas em prática.
Os cobertores deixam de ser objetos e passam a ser membros da família.
E, sem perceber, começamos a prestar atenção em coisas que o calor costuma esconder: O cheiro do café, barulho da chuva no telhado, a companhia de quem amamos, o privilégio de ter para onde voltar no fim do dia.
Apesar de todas as reclamações sobre o frio, existe uma certa ternura no inverno.
Ele nos lembra que conforto não tem tanto a ver com bens materiais. Tem a ver com presença. Com afeto. Com pertencimento.
Porque, no fim das contas, ninguém se recorda da menor temperatura registrada naquele ano. Mas lembramos da sopa feita pela avó. Do filme assistido debaixo do cobertor. Da conversa que atravessou a noite em frente a lareira ou do fogão a lenha. Do abraço que nos aqueceu ainda mais.
E esse é o segredo que a massa polar deixa e tenta nos ensinar todos os anos: Enquanto a natureza parece enlouquecer lá fora, alguma coisa dentro de nós encontra a oportunidade de florescer.
Devagar.
Sem pressa.
Como tudo o que realmente importa.

Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo

























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