Um ano depois, como está o caso de desaparecimento de casal em Cachoeirinha
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- 28 de fev. de 2023
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Imagens de câmera de segurança são os últimos registros que familiares de Rubem Affonso Heger, de 85 anos, e Marlene dos Passos Stafford Heger, de 53, têm do casal. Em 27 de fevereiro de 2022, eles sumiram de casa em Cachoeirinha, na Região Metropolitana. O desaparecimento levou à mobilização e buscas, mas os dois nunca foram encontrados.
A investigação concluiu que o idoso e a esposa foram assassinados. Uma filha e um neto do aposentado se tornaram réus pelo crime – as defesas alegam que eles são inocentes. Um ano depois, a família espera por Justiça.
Os réus pelo que é considerado um duplo homicídio são Cláudia de Almeida Heger, de 51 anos, e o filho dela Andrew Heger Ribas, de 29. Ela é filha de Rubem e enteada de Marlene. Os dois residiam em Canoas, também na Grande Porto Alegre, quando o casal sumiu. Ao longo do caso, chegaram a ser presos, mas Cláudia retornou à prisão domiciliar, em razão de problemas de saúde, e atualmente está sendo monitorada com uso de tornozeleira eletrônica. Já Andrew foi encaminhado ao Instituto Psiquiátrico Forense (IPF), onde permanece internado.
Na Justiça, o caso ainda está na fase de instrução, que é quando são ouvidas testemunhas e interrogados os réus. Na primeira audiência, em janeiro, foram ouvidas 11 testemunhas de acusação.
A próxima, segundo o Judiciário de Cachoeirinha, está agendada para 14 de março. É quando devem ser ouvidas as duas testemunhas que faltam da defesa e dar início às oitivas das de acusação. Pela ré Cláudia foram indicadas 10 testemunhas e por Andrew são sete pessoas que falarão no Judiciário. Somente após essa etapa, os réus devem ser interrogados. Ainda não há previsão de quando isso deve ocorrer.
Imagens e outros indícios
Promotor de Justiça Criminal Tomaz de la Rosa é o responsável pela denúncia contra os dois. O Ministério Público espera conseguir que mãe e filho sejam submetidos ao Tribunal do Júri.
"Esperamos que sejam pronunciados nos exatos termos da denúncia. Inclusive porque a prova vem muito tranquila nesse sentido, desde os primeiros dias. Com as filmagens que surgem logo após o desaparecimento, veio tudo se comprovando e se confirmando de uma forma muito segura. Não vejo possibilidade de não irmos a júri popular", diz o promotor.
Cláudia e Andrew passaram a ser considerados suspeitos em razão de imagens obtidas de câmeras próximas à casa das vítimas. Nelas, pode-se ver que a filha e o neto estiveram na moradia do casal naquele dia 27 e deixaram o local de carro. No entanto, como o veículo conta com película escura, não é possível visualizar se Rubem e Marlene estavam dentro. A filha alega que levou o pai e a madrasta para passarem alguns dias em sua casa, em Canoas, e que de lá eles desapareceram.
A acusação, no entanto, não acredita nesta versão e sustenta que os dois foram assassinados e tiveram os corpos ocultados. O fato de que os cadáveres nunca foram localizados, mesmo com buscas, é um dos pontos questionados pela defesa. O promotor argumenta que esta não é a única forma de comprovar que houve um crime. Um dos indicativos, segundo a acusação, é a presença de resquícios de sangue localizados pela perícia em pontos da moradia das vítimas.
"Os corpos são só uma das formas de se comprovar materialidade, temos inúmeras outras. Temos casos nacionais, como o do goleiro Bruno [Fernandes], em que o corpo da Eliza [Samúdio] nunca apareceu. E se reconheceu a procedência", afirma o promotor, referindo-se ao caso no qual o jogador foi condenado a 22 anos pelo assassinato e por esconder o corpo da modelo.
Além do homicídio, Cláudia e Andrew também respondem pelo crime de ocultação de cadáver. Segundo a acusação, notas fiscais mostram que Cláudia comprou utensílios numa ferragem, como uma lona de caminhão, braçadeiras plásticas e fitas crepes, em 9 de fevereiro, além de braçadeiras de nylon, tinta spray e fita tape, em 16 de fevereiro. Em 11 de fevereiro, Andrew levou o carro até uma oficina para instalação de películas escuras nos vidros. Outro ponto que despertou atenção é o fato de que o automóvel estava com os carpetes arrancados quando foi submetido à perícia, após o sumiço do casal.
Motivos para o crime
Sobre a motivação do crime, a acusação entende que uma soma de fatores levou ao desfecho. Um deles seria o interesse financeiro, já que o idoso havia vendido pouco tempo antes de desaparecer um veículo, no valor de R$ 70 mil. Isso teria se somado a desentendimentos anteriores, que teriam levado, inclusive, ao afastamento da família.
"Temos informações de que quando a Cláudia ressurge junto com o Andrew é justamente quando foi vendido o caminhão. Era sabido que [Rubem] tinha dinheiro em casa e no banco. Temos informação, que foi confirmada em juízo, por testemunhas, de que seu Rubem se recusou a dar apoio financeiro a Cláudia, pela insatisfação que ele tinha por ela já ter simulado um sequestro", diz o promotor.
Em relação à Marlene, Cláudia teria, segundo a acusação, problema com o fato de que ela, em seu entendimento, teria passado a ocupar o lugar de sua mãe, após se casar com Rubem.
"Denunciamos esse caso como homicídio quadruplamente qualificado, e esperamos que a gravidade do crime seja reconhecida pelo próprio Conselho de Sentença, pela comunidade. E que essa gravidade seja acolhida no cumprimento das penas. O que o MP quer é pena de prisão para a Cláudia e da mesma forma em relação ao Andrew", diz De la Rosa.
No caso de Andrew, no entanto, o futuro dele dependerá de análise do Judiciário. Isso porque, no fim de novembro, o IPF emitiu laudo no qual considera o réu incapaz de compreender os atos criminosos. Após esse resultado, a Justiça determinou a manutenção da internação provisória dele no IPF. Mesmo que seja submetido a júri, se houver pronúncia, caso seja entendido que ele é inimputável, a pena aplicada deve ser diversa, podendo ser de internação.
Em relação à Cláudia, o MP diz que segue monitorando a situação, que está usando tornozeleira eletrônica, e que continuará pleiteando que ela retorne à prisão.
Família espera localização de corpos
Ao longo do último ano, familiares conviveram com as incertezas sobre o que aconteceu aos dois e com a busca por Justiça. Esposa de Maurício, um dos filhos de Marlene, a vendedora Vanessa Nascimento de Armas, de 28 anos, esperava que as buscas seguissem, mesmo com o indiciamento dos dois investigados.
"Estamos bem tristes, indignados, sabe, de não poder fazer o enterro, não ter uma despedida. A polícia encerrou as buscas sem achar os corpos. Como encerrar as buscas atrás dos corpos se não foram encontrados? Essa é uma dúvida que a família fica", indaga.
A Polícia Civil, responsável pela investigação que levou ao indiciamento da filha e do neto, afirma que foram realizadas todas as buscas possíveis durante a investigação e que nova procura só será iniciada caso surja alguma pista do paradeiro dos corpos.
Vanessa conta que, para os familiares, é muito difícil lidar com as lembranças e os questionamentos sobre o caso. A nora recorda da sogra como uma pessoa alegre, que se dava bem com a vizinhança, muito próxima dos filhos e que costumava estar sempre em contato por telefone. Lembra de Marlene e Rubem como um casal apaixonado.
"Ela era muito apaixonada. Passou 25 anos cuidando dele. Deixou de trabalhar para ficar cuidando dele, que necessitava de cuidados especiais. Ela fazia o almoço, janta, limpava a casa toda hora. Podia chegar lá qualquer horário que era tudo sempre arrumadinho, sempre organizado. Ela tinha um brilho no olhar e ele também, se amavam de verdade", diz.
A vendedora diz que, além da localização dos corpos, a família aguarda que os responsáveis pelo crime sejam condenados. "A sensação de não poder enterrar teu familiar é terrível. Um dia fala com a tua mãe, tua sogra, e no outro não pode falar mais", afirma.
Defesas buscam impronúncia
À frente da defesa de Cláudia, o criminalista Jean Severo afirma que a cliente garante ser completamente inocente das acusações. Um dos argumentos da defesa é justamente o fato de que os corpos nunca foram localizados, para comprovar que as vítimas foram mortas.
"Inclusive, no processo não tem nenhuma prova robusta de que ela tenha cometido esses homicídios. O que tem são pessoas que sumiram. Um processo que não tem nem materialidade. Acredito que nem vá a júri. Não tem materialidade, não tem corpo, não tem robustez processual nenhuma. Então, nós batemos na tecla de que a Cláudia é completamente inocente", sustenta. "Buscamos impronúncia porque não tem materialidade. Não tem porque ela ser pronunciada", diz Severo.
O advogado André Von Berg, que representa Andrew, também sustenta a inocência do cliente e aguarda julgamento de um habeas corpus pelo Tribunal de Justiça. Da mesma forma, o criminalista busca que o cliente não seja submetido a júri.
"Tenho convicção na inocência do Andrew e que será feita Justiça ao caso concreto. A expectativa é de que o ele seja absolvido, nem que seja pela inimputabilidade. Há laudos que apontam que ele sofre de psicose não-orgânica não especificada e outros transtornos dissociativos", argumenta o advogado.
Fonte: GZH
























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