Antes que as palavras desapareçam - Por Magali Schmitt
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- 29 de jun.
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Comprei meu primeiro e único dicionário da vida na Beira Sinos. Por volta de 1983. Eu cursava a sétima série, o que hoje chamamos de oitavo ano. Aquilo era o máximo da erudição que eu conseguia imaginar aos 13 anos. Peguei um ônibus sozinha até o Centro para comprar um dicionário numa livraria. A viagem tinha gosto de liberdade, um quê de maturidade e muito da mulher que eu ainda me tornaria.
Na minha cabeça, São Leopoldo era o baluarte da cultura. Uma cidade com livrarias, um museu que preservava a história da imigração alemã, uma biblioteca pública onde eu batia ponto e um comércio pujante. Enchia os olhos. Para uma criança, era um parque de diversões imenso, num tempo em que não se tinha medo de andar na rua a qualquer hora do dia.
Levei meu dicionário para casa, embrulhado em papel. E ele passou a ocupar um espaço singular na minha vida. Escrevi meu nome na página três para garantir a posse daquele bem inestimável. Era comum emprestar livros e, volta e meia, a gente precisava recuperá-los entre os colegas. Melhor identificar. Sempre fui cuidadosa — e um tanto ciumenta — com as minhas coisas. Talvez seja por isso que meu Aurelinho ainda esteja na estante. Hoje, porém, acredito que aquele exemplar fala mais da cidade do que de mim.
Os anos se sucederam e São Leopoldo se transformou — como tinha de ser. A forma como lemos, compramos livros e ocupamos a cidade agora é diferente. As livrarias deixaram de ser necessárias como antes. Eu mesma nem lembro em que quadra da Independência ficava a Beira Sinos, porque a Rua Grande é outra. E não falo apenas da arquitetura. Falo de nós, da nossa relação com a cidade, do nosso jeito de vivê-la.
São Leopoldo mudou, como todas as cidades mudam. Assim como o jeito como lemos, compramos livros e até como ocupamos o espaço urbano. Mas talvez a maior transformação tenha sido outra: fomos perdendo os lugares que nos ensinavam, silenciosamente, a pertencer. Não apenas as livrarias, mas também o hábito de caminhar sem pressa, de reconhecer rostos, de criar intimidade com as ruas.
Não acredito que o passado tenha sido melhor. Só penso que uma cidade não vive apenas de obras, prédios ou desenvolvimento econômico. Ela também vive das histórias que escolhe preservar e dos espaços onde essas histórias continuam sendo contadas. Pertencimento é aprendido, como se aprendem as palavras de um dicionário: uma a uma, todos os dias.
Esse é nosso maior desafio. Antes que as palavras desapareçam, precisamos cuidar dos lugares que lhes dão sentido. Porque, quando uma cidade deixa de ensinar seus habitantes a amá-la, não é apenas a memória que se perde. É parte do futuro também.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.
























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