Entre contemplar e registrar -Por Nana Vier
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Faz uma semana que voltei de viagem. E, curiosamente, ainda estou viajando.
Não porque tenha saído novamente de casa, mas porque as lembranças continuam chegando aos poucos. Elas aparecem quando encontro uma fotografia esquecida no celular, quando provo um sabor que me lembra algum restaurante distante ou quando alguém pergunta: “E a viagem, como foi?”.
Foi durante essa viagem que me deparei com um dilema bastante atual.
Houve momentos em que a beleza era tanta que eu simplesmente não sabia o que fazer.
Fotografava ou apenas observava?
Quando estamos diante de uma paisagem deslumbrante, caminhando por ruas que atravessaram séculos de história ou assistindo ao pôr do sol em um lugar que conhecemos apenas pelos livros e fotografias, surge uma dúvida silenciosa: registrar ou contemplar?
Porque as duas coisas exigem atenção. E atenção, naquele instante, é um recurso limitado.
Fotografar é uma forma de guardar o momento. Contemplar é uma forma de vivê-lo.
Em alguns lugares, guardei o celular. Apenas observei. Escutei os sons das ruas, os idiomas que eu não compreendia, o movimento das pessoas, os sinos das igrejas, os músicos nas praças. Deixei que a experiência acontecesse sem a preocupação de enquadrá-la.
Mas seria injusto dizer que me transformei numa espécie de monja da contemplação.
A verdade é que eu fotografei muito.
Muito mesmo.
Voltei para casa com milhares de imagens. Publiquei várias durante a viagem, publiquei outras ao retornar e, uma semana depois, ainda tenho fotografias suficientes para alimentar as redes sociais por um bom tempo.
Há paisagens esperando postagem. Cafés esperando legenda. Monumentos esperando aparecer no Instagram. Pôr do sol aguardando sua vez de ser compartilhado.
A julgar pelo conteúdo armazenado no meu celular, parece que eu passei os dias inteiros atrás de uma câmera.
Mas não foi assim.
E talvez seja justamente isso que mais me chamou atenção.
Mesmo fazendo um esforço consciente para desacelerar e contemplar, ainda assim registrei muito. O suficiente para perceber que o problema não está necessariamente nas fotografias.
Registrar também é uma forma de viver.
Uma fotografia não serve apenas para mostrar aos outros onde estivemos. Ela nos ajuda a preservar detalhes que o tempo inevitavelmente levará. Um prato típico, uma rua desconhecida, uma estação de trem, uma fachada antiga, uma expressão espontânea. Tudo isso se transforma em memória.
Em determinado momento da viagem, lembrei de um colega que havia comprado um daqueles óculos inteligentes que filmam tudo enquanto a pessoa caminha. Confesso que achei a ideia genial.
Pensei comigo: pronto, encontrei a solução. Eu observo o mundo e a tecnologia registra tudo por mim.
Alguns segundos depois percebi o absurdo da situação.
Eu estava tentando terceirizar até a minha própria atenção.
Vivemos uma época fascinante. Nunca foi tão fácil registrar cada detalhe da existência. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil permanecer inteiro dentro do instante presente.
Talvez por isso tanta gente volte de lugares incríveis com milhares de fotos e poucas lembranças realmente vividas.
Não porque faltaram registros, mas porque sobrou preocupação em registrá-los.
A viagem me fez perceber que não existe uma escolha definitiva entre contemplar e fotografar. Precisamos das duas coisas.
Precisamos olhar e também guardar.
Precisamos viver e também lembrar.
O segredo talvez esteja no equilíbrio. Em saber quando levantar o celular e quando simplesmente deixá-lo no bolso.
Porque algumas experiências merecem uma fotografia.
Outras merecem apenas silêncio.
E existem cenas tão bonitas que a melhor imagem que levamos delas nunca será publicada em lugar algum.
Ela permanece guardada em um espaço que nenhuma nuvem digital consegue armazenar: a memória de quem realmente esteve ali.

Nana Vier, é professora e escritora



