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Mais esperto que o diabo... ou será que não? - Por Daniela Bitencourt Andara

Tenho um hábito, no qual tenho até um certo orgulho: ler! Leio muito! Principalmente antes de dormir. Para mim, os livros são como portais silenciosos que me permitem viajar por outros mundos sem sair da minha cama. Há alguns anos, ganhei um exemplar do livro: Mais Esperto que o Diabo, de Napoleon Hill. Ele foi para uma fila de espera já bastante concorrida, como acontece com muitos amantes da leitura. Ficou ali, por algum tempo, paciente, observando outros títulos passarem à sua frente.


Na semana passada, finalmente chegou a vez dele. E preciso dizer: recomendo muito a leitura.


Foi escrito há quase um século. E surpreende, por parecer ter sido pensado para os dias atuais. Nele, Hill cria uma entrevista fictícia com o Diabo, que revela suas estratégias para controlar as pessoas. E não! Não é o medo, não é a força, muito menos a violência. É algo bem mais sutil: estar sempre no "piloto automático" ou seja viver sem assumir o comando.


Segundo o autor, "pessoas no automático" são aquelas que deixam a vida simplesmente acontecer. Não questionam, não refletem, não escolhem conscientemente seus caminhos. Apenas seguem o fluxo, muitas vezes guiadas pelas opiniões dos outros, pelos hábitos automáticos e pelas distrações do momento.


Nos dias que se seguiram da minha leitura, não consegui evitar algumas comparações.


Vivemos conectados o dia inteiro. Inclusive as crianças bem pequenas (que trocam as brincadeiras ao ar livre para ficar dentro de casa com tela). Recebemos notícias, vídeos, opiniões, tendências e notificações numa velocidade que nossos avós sequer imaginariam possível. Rolamos a tela do celular por minutos que se transformam em horas.


Muitas vezes sabemos o que um influenciador comeu no café da manhã, mas não lembramos o que fizemos no dia anterior. Não conseguimos responder o que realmente queremos para nossa própria vida.


Talvez o "piloto automático" moderno apenas tenha mudado de roupa.


Hoje ele pode aparecer no excesso de informações, na comparação constante com a vida dos outros, na dificuldade de permanecer alguns minutos em silêncio ou na sensação de estar sempre ocupado sem necessariamente estar caminhando em direção a algo importante.


O livro não fala apenas sobre o que nos prende, mas sobre o que nos liberta: pensar por conta própria. Em tempos de algoritmos que escolhem o que veremos, ouviremos e até compraremos, essa mensagem parece mais atual do que nunca.


Ao fechar a última página, fiquei refletindo sobre quantas vezes entregamos o volante da nossa vida para o automático. Quantas vezes adiamos sonhos, deixamos projetos para depois ou permitimos que o medo das críticas decida por nós.


Talvez ser "mais esperto que o diabo", nos dias atuais, não tenha relação com derrotar uma entidade misteriosa. Talvez seja algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil: manter a consciência desperta em um mundo que constantemente nos convida a viver distraídos.


E foi assim que um livro que passou anos esperando na minha estante acabou me lembrando de algo essencial: a vida não foi feita para ser assistida como quem passa os olhos por uma tela infinita. Ela foi feita para ser escolhida, construída e vivida com intenção.


Porque, no fim das contas, a maior armadilha talvez não seja errar o caminho. É nunca perceber que deixamos de conduzi-lo.


Daniela Bitencourt Andara, é Pedagoga e Professora da Rede Municipal de São Leopoldo

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