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Não é só o crime que nos atravessa. É o que vem depois dele - Por Nana Vier

Duas crianças foram assassinadas pelo próprio pai. A brutalidade já seria suficiente para nos calar por alguns dias. Mas não. Logo surgem as explicações apressadas: ele estava tomado pelo ciúme, devastado pela traição, fora de si. Como se a dor masculina pudesse funcionar como atenuante moral. Como se o sofrimento autorizasse transformar filhos em instrumento de vingança. Como se a honra ferida tivesse mais peso do que a vida.

E então algo ainda mais perturbador acontece: parte da sociedade, e pasmem, a maioria formada por mulheres, procura uma culpa feminina para equilibrar a balança. A mãe, que acabara de perder os filhos, foi vaiada no velório do mais velho. Vaiada. Precisou ser retirada do local porque, no tribunal improvisado das emoções alheias, já estava condenada. Não importava a verdade dos fatos. Bastava a suspeita de que tivesse traído o marido. A hipótese virou sentença. O boato virou punição pública.

Há algo profundamente revelador nesse movimento. Quando um homem mata movido por ciúme, surgem narrativas que suavizam sua responsabilidade. Fala-se em descontrole, em humilhação, em excesso de amor. O roteiro é antigo. É o mesmo que sustenta o feminicídio: a ideia de que o homem, ferido no orgulho, reage porque foi provocado, traído, diminuído. Como se o ego masculino ferido fosse um gatilho compreensível. Como se a violência fosse apenas uma explosão infeliz, e não uma escolha consciente.

Mas é preciso dizer algo simples: ninguém sabe o que se passava naquela casa. Podemos imaginar um homem emocionalmente instável, incapaz de lidar com frustração, rejeição ou perda de controle. Podemos imaginar que essa mulher, como tantas outras, tivesse seus próprios motivos para querer se afastar. Separações não acontecem no vazio. Elas costumam ser o ponto final de uma história que já vinha rachando por dentro.

Refletir sobre isso não é justificar nada. É apenas reconhecer que, muitas vezes, quando uma mulher decide ir embora, ela já suportou muito antes. E mesmo que não tivesse suportado nada, ainda assim teria o direito de sair. Relações não são prisões. Traição não é autorização para violência. O término de um vínculo não transforma ninguém em alvo legítimo de vingança.

Agora façamos o exercício inverso. Se fosse uma mãe que tivesse assassinado os filhos após ser traída, alguém falaria em desespero compreensível? Haveria quem dissesse que ela amava demais? Ou seria chamada de monstro, sem direito a explicação, sem que ninguém buscasse entender o contexto?


A diferença de tratamento não é detalhe. Ela revela o quanto ainda naturalizamos a violência masculina como reação emocional e, ao mesmo tempo, policiamos e punimos moralmente o comportamento feminino. Traição passa a ser julgada com mais severidade do que assassinato. A mulher suspeita vira ré. O homem que matou ganha comoção pública, quase compreensão.

Nada justifica o assassinato de crianças. Nem ciúme, nem dor, nem traição. Mas também nada justifica transformar uma mulher enlutada em alvo público para aliviar a responsabilidade de quem escolheu matar. Relativizar esse crime é grave. Vaiar essa mãe é cruel. E continuar tratando a violência masculina como tragédia passional é perpetuar o mesmo enredo que alimenta o feminicídio todos os dias.

Dor não autoriza barbárie. E traição nunca foi sentença de morte.

Nana Vier, é professora e escritora

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