O que a criança que fui diria de mim? - Por Nana Vier
Outro dia me peguei pensando numa situação curiosa: e se a menina que fui, lá pelos oito ou dez anos, aparecesse hoje para me conhecer? Será que ficaria orgulhosa da mulher em que me transformei ou perguntaria, desconfiada: “Era só isso que a gente ia conseguir?”
Imagino que a primeira decepção seria descobrir que ser adulto não significa poder fazer tudo o que se quer. Pelo contrário. A gente pode dormir tarde, mas precisa acordar cedo. Pode comprar chocolate, mas tem que cuidar do colesterol. E pode mandar na própria vida, desde que pague os boletos.
A psicologia tem uma explicação interessante para esse encontro imaginário. Erik Erikson, estudioso do desenvolvimento humano, defendia que nossa identidade se constrói ao longo da vida, atravessando diferentes conflitos e descobertas. Ou seja, não nascemos prontos. Ainda bem! Seria um desperdício passar décadas apenas envelhecendo a embalagem.
Também existe um conceito chamado continuidade do eu, que trata da conexão que sentimos entre quem fomos, quem somos e quem imaginamos ser no futuro. Curioso é perceber que mudamos tanto e, ainda assim, carregamos aquela criança dentro de nós.
Se pudesse conversar com a minha, começaria tranquilizando: não, você não vai saber todas as respostas quando crescer. Aliás, quanto mais estudar, mais perceberá o tamanho daquilo que desconhece. E aquela mania de querer resolver tudo? Continua firme, infelizmente.
Contaria que algumas pessoas prometem ficar e vão embora. Outras chegam sem fazer barulho e permanecem para sempre. Que haverá dias de coragem extraordinária e outros em que levantar da cama já será uma vitória.
Avisaria que o amor não funciona exatamente como nos contos de fadas. Tem louça na pia, contas, divergências e uma pergunta recorrente: “Onde você colocou aquilo?” Mas também tem cumplicidade, gargalhadas e uma felicidade imensa nas pequenas coisas.
E pediria desculpas pelas vezes em que deixei de brincar por excesso de responsabilidade, pelas preocupações antecipadas e por ter levado tão a sério opiniões de quem nem conhecia a minha história.
Mas desconfio que a conversa mais importante viria dela. Crianças têm essa capacidade inconveniente de fazer perguntas que desmontam nossas certezas.
“Você ainda ri até a barriga doer? Ainda faz coisas só porque gosta? Ainda tem sonhos?”
Espero responder que sim.
Porque, no fim, o maior fracasso de crescer não é deixar de realizar os sonhos da infância. É perder a capacidade de inventar outros.
E, se aquela menina me perguntasse se valeu a pena crescer, eu responderia: valeu, minha pequena. Não foi exatamente como planejamos. Foi muito mais interessante.

Nana Vier, é professora e escritora

























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