Será que os anos 80 eram melhores? - Por Nana Vier
Eu também entrei na trend dos anos 80. Pedi à inteligência artificial que criasse a minha versão daquela época e depois publiquei, ao lado dela, uma fotografia original dos meus anos 80. Foi divertido comparar a memória verdadeira com a reconstrução tecnológica. A inteligência artificial caprichou no cabelo, nas cores e no clima da década. Mas a foto antiga carregava algo impossível de fabricar: a menina que eu era, o momento vivido e uma história que não precisava de filtro.
De repente, as redes sociais foram invadidas por cabelos armados, franjas generosas, ombreiras e jaquetas coloridas. Até quem nem sequer viveu aquela década apareceu suspirando por ela. Bastou uma trend para muita gente concluir que nasceu na época errada.
Mas será que os anos 80 eram realmente melhores?
Minha geração saía para dançar. E dançava mesmo, sem interromper a música para registrar quinze versões da mesma cena. Os meninos atravessavam o salão, convidavam uma menina e, de vez em quando, levavam um sonoro “não”. Chamávamos isso de carão. Doía por alguns minutos, os amigos riam, ele disfarçava e partia para outra. A vida seguia.
Ouvi dizer que muitos jovens hoje evitam dançar porque têm medo de serem filmados. Faz sentido. Na nossa época, uma tentativa desajeitada terminava quando as luzes do salão se apagavam. Agora, um passo errado pode atravessar continentes, ganhar trilha sonora, legenda e milhões de visualizações antes de a música acabar. Nós também fazíamos papel de bobos, mas contávamos com a preciosa proteção da falta de provas.
As trends não recuperam apenas roupas, carros, jogos, músicas e penteados. Elas oferecem uma versão mais simples de nós mesmos, anterior à vigilância permanente das câmeras e à obrigação de parecer interessante o tempo todo.
Isso não significa que tudo fosse melhor. Para assistir a um filme, era preciso esperar sua estreia no cinema ou torcer para que chegasse à televisão. O videocassete apareceu ainda naquela década, mas foi nos anos 90 que se tornou mais presente em nossas casas. Alugar uma fita era um acontecimento. Escolhíamos o filme, comprávamos pipoca e reuníamos vizinhos e amigos. O aparelho precisava colaborar, porque uma fita engolida transformava a sessão em filme de terror.
Hoje carregamos no bolso uma locadora, uma biblioteca, um banco, uma câmera e um mapa. Temos mais conforto, informação e praticidade. Também temos menos espera, menos encontros improvisados e pouquíssimos momentos que não sejam fotografados.
A nostalgia é uma editora habilidosa: corta os problemas, melhora as cores e deixa apenas as cenas bonitas. Não sentimos saudade de esperar horas por um telefonema, mas de quem éramos enquanto esperávamos.
A imagem criada pela inteligência artificial ficou bonita. A fotografia verdadeira, porém, me lembrou de algo importante: os anos 80 não eram melhores em tudo. Nós é que éramos mais livres para errar sem virar conteúdo. E isso, convenhamos, dá uma saudade danada.

Nana Vier, é professora e escritora

























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