Você ouve ou escuta? - Por Magali Schmitt
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Todo mundo conhece alguém que não presta atenção nas conversas, que está mergulhado na tela do celular enquanto os demais falam, que responde antes mesmo de ouvir. Se formos honestos, todos nós já ocupamos esse lugar em algum momento. Interrompemos o outro, completamos frases que não terminaram, atravessamos histórias sem sequer perceber. A impressão é que desaprendemos a escutar. E, em alguns casos, queremos apenas nos ouvir, validar nossas teses.
Os estímulos nos bombardeiam, disputam nossa atenção a cada segundo. Notícias, notificações, vídeos curtos, mensagens, opiniões. Nunca tivemos tanto acesso ao mundo e, paradoxalmente, parece que nunca estivemos tão distantes uns dos outros. Presentes fisicamente, mas com a cabeça em outro lugar — num trânsito permanente que não leva a lugar algum, sem jamais chegar ao destino. E se você pensa que consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo, pare de se enganar. Ninguém entrega qualidade às relações dessa forma.
Há algo de singular nessa época. A sociedade antes se organizava em torno de comunidades, vizinhanças, famílias extensas e espaços coletivos. Um costume que agregava, unia e criava vínculos eternos. Agora, parece funcionar cada vez mais orientada ao indivíduo, que coexiste com o mundo a partir do telefone. As próprias redes sociais são construídas sobre essa lógica: mostrar, opinar, reagir, produzir versões de si mesmo. Ouvir é um dos sentidos que mais se desvalorizou. Os vídeos, inclusive, já nascem legendados, para que possamos assistir sem áudio, onde estivermos.
Nessa ciranda de aparências, a dor do outro perdeu espaço. A capacidade de se comover continua existindo? Creio que sim, mas parece cada vez mais fragmentada, dividida entre milhares de concorrentes. Não me parece que tenhamos nos tornado pessoas piores; talvez estejamos apenas exaustos, sobrecarregados por um volume de informações para o qual não fomos preparados.
Mas sou teimosa e insisto. Ouvir é o desafio que pode levar à grande revolução do nosso tempo. Na atualidade, parar o que se está fazendo para prestar atenção genuína em alguém é quase um ato de resistência. Porque a escuta verdadeira carrega uma mensagem silenciosa: você importa. Para mim, essa é justamente a atenção que anda em falta no mundo.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.

























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