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Zé Martins: a cultura era sua paixão; a simplicidade, sua maior obra - Por Bado Jacoby

Foto: Adil Lima
Foto: Adil Lima

Existem pessoas que ocupam todos os espaços sem nunca precisar levantar a voz. Zé Martins era uma delas.


O Rio Grande do Sul perde um de seus maiores representantes da cultura popular. São Leopoldo perde um amigo de longa caminhada. E o mundo civilizado perde um artista que sempre acreditou que a cultura era capaz de aproximar pessoas, derrubar fronteiras e construir um mundo melhor.


Fundador do Grupo Unamérica, músico, compositor, artista plástico, arte-educador e militante da cultura popular latino-americana, Zé construiu um legado que ultrapassa discos, apresentações e projetos culturais. Sua maior obra talvez tenha sido a quantidade de pessoas que inspirou ao longo da vida, sempre utilizando a arte como instrumento de transformação social.


Mas quem teve o privilégio de conhecê-lo sabe que seus maiores atributos não cabem em um currículo.


Zé carregava uma simplicidade rara. Parecia até sentir certo constrangimento quando era reconhecido pelo tamanho de sua trajetória. Era um daqueles artistas que falavam baixo, ouviam muito e deixavam que a própria obra falasse por eles. Havia nele uma humildade quase desarmante, um jeito tímido, quase envergonhado, incompatível com a dimensão de sua importância para a cultura gaúcha e latino-americana.


São Leopoldo foi um dos cenários dessa caminhada. Por décadas, sua presença foi constante nos movimentos culturais, nos encontros de artistas, nas rodas de conversa, nas manifestações populares e em tantos espaços onde a arte encontrava a cidadania. Não era difícil cruzar com Zé pelas andanças da cultura leopoldense.


Foi justamente nesses encontros que nasceu uma promessa que, infelizmente, o tempo não permitiu cumprir.


Sempre que nos encontrávamos, renovávamos a mesma ideia: "precisamos marcar aquela entrevista." A conversa ficava para a próxima semana, para o próximo evento, para a próxima atividade cultural. Como tantas coisas da vida, acreditávamos que haveria tempo. Não houve.


E talvez fique justamente essa pequena frustração de comunicador: não ter registrado em uma longa conversa a história de um homem que viveu para contar, através da música, aquilo que muitos livros jamais conseguirão explicar.


Zé Martins jamais buscou os holofotes. Preferia caminhar ao lado das pessoas, construir coletivamente, ensinar, aprender e cantar. Era um artista que fazia da cultura um gesto cotidiano, sem vaidade e sem espetáculo. Sua ausência deixa um vazio enorme.


A cultura gaúcha perde um de seus mais legítimos representantes. São Leopoldo perde uma presença que ajudou a moldar sua identidade cultural. E todos nós perdemos alguém que provava, todos os dias, que talento e humildade podem caminhar juntos.


Algumas pessoas passam pelo mundo deixando sucessos. Outras deixam patrimônio. Outras, ainda, deixam cargos. Zé Martins deixa algo muito mais difícil de construir: um legado de coerência, sensibilidade e humanidade. E esse tipo de herança não morre.


Ela continua ecoando em cada canção, em cada artista que ajudou a formar, em cada movimento cultural que fortaleceu e na memória de todos que tiveram o privilégio de cruzar seu caminho.


Descanse em paz, Zé. A cultura ficou mais silenciosa e o mundo civilizado mais carente.


Bado Jacoby, é repórter e apresentador da Start Comunicação

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