A comédia da vida privada - Por Magali Schmitt
- Andressa Brunner Michels - Jornalista - MTB 19281/RS

- 29 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Terminar um relacionamento e fazer uma live de casal para explicar o ocorrido é de uma civilidade que não cabe no meu arcabouço. Tenho dificuldade em lidar com essas coisas, aliada a certa falta de prática nesse quesito. Na minha cabeça, as coisas funcionam como no português: ordem direta, sujeito, verbo, predicado. Ivo viu a uva. Antiquado, eu sei.
Quando me deparo com situações assim, volto ao modo paleolítico inferior e sinto estranhamento. Mas o fim não precisa ser, necessariamente, o fim. Até a literatura — campo em que gosto de grassar — já se adaptou, evoluiu para os finais abertos. Logo, também preciso abrir a minha mente.
Ainda assim, esse assunto me remete a outro ponto, aquele em que desejo me demorar um instante a mais. Como um pintor que segura o pincel por um momento para sorver a atmosfera em transformação e só depois retoma a obra, reavivado por essa breve tomada de fôlego.
Quero me fixar exatamente no presente. Nesse lapso de tempo que atravessamos, em que parece necessário explicar ao público o término de um casamento, de uma relação amorosa. Talvez seja isso que me cause maior estranhamento: esse incômodo que não se explica, como uma roupa apertada que só percebemos o quanto machucava quando finalmente a tiramos. O momento em que precisamos prestar contas ao público do que sempre pertenceu ao privado.
Posso estar muito na contramão da humanidade — e pergunto se mais alguém aí fora pensa assim?
É como se estivéssemos vivendo um grande Show de Truman normalizado. Ou, para voltar à literatura, habitando um 1984 em versão distorcida, em que precisamos prestar contas ao Grande Irmão o tempo todo. Com a diferença inquietante de que o Grande Irmão agora somos nós.
Talvez seja essa inversão que esteja me cutucando as costelas. Como o pé inchado no fim da festa: se tiramos o sapato, babau, ele não entra mais. Algo saiu do lugar — e não volta facilmente.
Não consigo achar natural. Como disse, é uma civilidade que supera meu discernimento. Está além da minha capacidade. E pergunto, de novo, se devemos mesmo seguir por essa estrada? Porque esse também é o papel do jornalista: perguntar para entender. Causar o desconforto que leva ao benefício da dúvida. Ser o bastião que traz à luz temas incômodos que a sociedade, muitas vezes, prefere varrer para debaixo do tapete.
E este é um tema que precisa ser discutido. A virada de chave em que a vida dos outros se tornou tão interessante — e tão da nossa conta — que estranhos passam a se explicar, em rede mundial e para quem quiser ver e ouvir, sobre o ponto final de uma história a dois.
Em que isso impacta, afinal, a nossa mediocridade desassistida de likes? Nossos boletos seguirão vencendo, o IPVA e o IPTU também, o material escolar e o uniforme das crianças aguardando o fevereiro das nossas existências.
Talvez — e só talvez — a efemeridade de entender como funciona por dentro a vida de um famoso acalente nossos dias engolidos pela pressa do relógio. Talvez isso nos aproxime dessa intangível plasticidade das redes sociais, nos faça sentir pertencentes a um lugar de glamour e perfeição onde raramente pisamos, porque somos pessoas comuns.
E que bom ser uma pessoa comum que não é refém dos modismos. Apesar do brilho e da impressão de que o mundo ideal está sempre nos outros, é preciso lembrar: a vida real, de fato, acontece aqui, deste lado da tela. Muito antes de tudo isso virar regra, o eterno Luis Fernando Verissimo — sempre ele — já nos adiantava, em A comédia da vida privada, o que estava por vir.

Magali Schmitt, é escritora e jornalista.






























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